25 de julho de 2024

Em Santana, periferia e surrealismo pincelam a vida de um jovem artista

Marcos Souza começou as primeiras pinceladas aos 7 anos. Hoje, com 18, o garoto virou um artista plástico conhecido por criar peças que significam a sua vida e inspiram a de quem as observa.
Foto: Marcos Souza/Arquivo Pessoal
Foto: Marcos Souza/Arquivo Pessoal

Para Marcos Souza, 18, a arte é mais do que uma paixão, é uma ponte para um futuro brilhante e cheio de possibilidades. Ele e a mãe moram em uma área de ressaca no bairro dos Remédios, no município de Santana, a 17 quilômetros de Macapá, de onde o artista transforma sua realidade através de pinceladas que evocam sonhos e esperanças.

Se você achar que nesta tela há um Sol, eu direi que é um polvo. Isso é o surreal nas artes. Foto: Marcos Souza/Arquivo Pessoal.

A INSPIRAÇÃO É COMO TINTA NAS VEIAS

Marcos se dedica à pintura encontrando inspiração no Surrealismo, um movimento artístico que desafia as fronteiras do real e do imaginário. Surgido na França, no início do século XX, o movimento busca explorar o subconsciente, libertando a criatividade das amarras da lógica e da razão. Dois dos maiores artistas que privilegiavam o surreal em suas criações foram Salvador Dalí e René Magritte No Brasil, Ismael Nery e Flávio de Carvalho também se destacaram no movimento, trazendo uma perspectiva única e enriquecedora para o cenário artístico nacional. 

Em O Filho do Homem, de 1964, René Magritte deixou algumas interpretações sobre a gênese do mundo. A diferença entre o real e a ilusão, quando a mente ama o desconhecido. Foto: René Magritte/Reprodução
A obra “Duas Mulheres”, de 1939, Flávio de Carvalho apresenta dois retratos femininos que exploram a identidade e as emoções das figuras. É uma critica às normas sociais da época favorável às mulheres. Foto: Acervo Museu de Arte Brasileira/MAB-FAAP

René Magritte (1898-1967) foi um pintor belga famoso por suas obras que desafiam as percepções convencionais da realidade. Conhecido por pintar objetos comuns em contextos inesperados, ele explorava as complexidades da percepção. Uma de suas obras mais icônicas, “O Filho do Homem”, destaca a diferença entre a representação e o objeto real. Magritte, certa época, afirmou brilhantemente que:

“A arte evoca o mistério sem o qual o mundo não existiria. Tudo o que vemos esconde outra coisa, sempre queremos ver o que está escondido pelo que vemos. A mente ama o desconhecido. Ela ama imagens cujo significado é desconhecido, uma vez que o próprio significado da mente é desconhecido“.

Flávio de Carvalho (1899-1973) foi um multiartista brasileiro que, além de pintor, foi arquiteto, cenógrafo e escritor. Conhecido por suas performances provocativas e ideias progressistas, ele desafiava normas sociais e explorava o surrealismo em suas obras. Uma de suas ações mais notáveis contra as disparidades entre homens e mulheres, foi a “Experiência nº 3”. Em 18 de outubro de 1956, Flávio deixou boquiaberta a sociedade paulistana ao caminhar pela Rua Barão de Itapetininga, no Centro, vestindo saia, meia-calça e blusa.

Carvalho acentuou que o convencional não pertence ao mundo da arte:

“Para ser um verdadeiro artista, é preciso romper com as convenções e explorar o desconhecido. A arte não é um espelho da vida, mas uma forma de vida em si mesma. O homem é um ser de contradições, e é essa dualidade que a arte precisa capturar”.

SURREALISMO VIRAL

O Surrealismo é o super ou supra-realismo. A arte de Marcos Souza expande o que é convencional. Foto: Marcos Souza/Arquivo Pessoal
Os significados das telas de Marcos convergem e divergem concomitantemente. Como disse Flávio Carvalho, “é preciso romper com as convencoes”. Foto: Marcos Souza/Arquivo Pessoal

Então, para René Magritte e Flávio de Carvalho, Marcos é um evocador da arte e um viajante das dualidades. Não é à toa que Souza possui um portfólio impressionante de 56 obras, das quais 6 já transformou em telas para a venda. Seu ateliê, localizado no quarto de sua casa de madeira, é um refúgio de criatividade e sonhos. Apesar da simplicidade do espaço, é ali que Marcos visualiza onde a arte o levará a explorar o mundo e proporcionar uma vida melhor para sua família.

A mãe de Marcos, a grande incentivadora de sua carreira, sempre acreditou em seu talento. Mesmo enfrentando dificuldades financeiras, ela economizava para comprar tintas e pincéis, permitindo que seu filho expressasse sua criatividade.

Minha mãe sempre me apoiou, mesmo quando tudo parecia difícil. Ela acreditava no meu talento e fazia o possível para me incentivar. Com o pouco que tínhamos, ela juntava economias para comprar tintas e pincéis, e assim eu comecei a dar vida às minhas criações. Cada obra que faço é um pedaço de mim, uma expressão dos meus sentimentos e sonhos.”

A viralização de um vídeo gravado por Rogério Santos, professor da Escola Estadual Professora Elizabeth Picanço Esteves, onde Marcos estuda, fez o garoto ser amplamente popular nas redes sociais. Só no Youtube já são mais de 200 mil visualizações com uma variedade de elogios cativando mais o garoto a seguir com seu dom. “Amigo, siga em frente, a arte corre nas veias do seu ser,” comentou um dos admiradores online. Esse reconhecimento não só valida o talento de Marcos, mas também inspira ainda mais o surrealismo que ele tem orgulho em representar.

Marcos com o professor Rogério, que vem ajudando na divulgação das pinturas do artista santanense. Foto: Arquivo Pessoal.

A história do jovem é um testemunho poderoso de como o talento e a dedicação podem florescer em qualquer circunstância, independentemente das origens humildes. O professor Rogério, que capturou o vídeo de Marcos, foi incentivado por outra professora comovida pela trajetória do aluno. 

A arte de Marcos transcende barreiras sociais e econômicas, servindo como um potencial exemplo de que a periferia também tem pessoas resilientes, onde as manifestações culturais podem ser ressonância social para inclusão e melhoria de vida de pessoas como Marcos. A popularidade do vídeo traz a esperança de que compradores se interessem por suas obras, proporcionando não apenas um sucesso financeiro, mas também uma validação artística.

Em um mundo onde a arte muitas vezes é vista apenas pelo prisma do sucesso comercial, histórias como a de Marcos nos lembram que o verdadeiro valor da arte reside em sua capacidade de conectar pessoas, contar histórias e enriquecer a experiência humana. Espera-se que a jornada de Marcos continue a ser uma fonte de inspiração e que sua arte encontre o reconhecimento que merece, não apenas em sua comunidade, mas também no cenário artístico mais amplo.

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