15 de julho de 2024

Além do desastre, gaúchos ainda sofrem com fake news

Arquivada no Senado, lei que puniria adequadamente os produtores e disseminadores de notícias falsas, dorme em berço esplêndido; enquanto isso, o povo gaúcho busca a redenção.

Na tarde desta quinta-feira, 09, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu um novo boletim reportando 107 óbitos e 140 pessoas desaparecidas, além de 231 mil cidadãos desalojados em decorrência do desastre natural que assolou o estado. Com 425 dos 497 municípios afetados, estima-se que cerca de 1,5 milhão de pessoas tenham sido impactadas pela tragédia. 

O relatório ainda informa que 136 pessoas estão desaparecidas, 165 mil foram forçadas a procurar refúgios temporários e 68 mil pessoas que não têm para onde ir, estão a procurar abrigos municipais ou estaduais. Até o momento em que esta matéria está sendo escrita, o governo gaúcho ainda divulgou que há 400 mil pontos sem energia e 500 mil sem água no estado

Iniciar este texto com números sobre a calamidade que assola o Rio Grande do Sul, não cumpre, de forma alguma, um ato de apontar culpados. É basilar usar o lead de maneira que conscientize quem o lerá. Mesmo que, infortunadamente, mais números serão apresentados.

O caos é visível, mas o reerguer é crível. Rio Grande não é grande apenas no nome, mas na resiliência. Foto: Diego Vara/Reuters

É profusamente admissível que as pessoas não olhem os números apenas para contabilizar o que já é trágico, doloroso. Mas que rememorem e homenageiem o ser humano. O desaparecido e o que já partiu.

Dois anos após a pandemia, o desastre que abalou o mundo, o Rio Grande do Sul vai precisar de uma reinvenção não apenas na máquina do Estado, mas principalmente na autoestima do povo gaúcho. 

A catástrofe climática do Rio Grande do Sul possui dois vieses. O primeiro é que uma relativa parcela da sociedade, definitivamente, é analfabeta funcional a respeito das pautas climáticas e da desinformação. O segundo, é que outra boa parte da sociedade brasileira, possui uma taxa tão elevada de alfabetização midiática quanto as suas ações criminosas nas redes sociais. 

As tempestades que praticamente destruíram um estado, têm relação intrínseca com os grupos acima. A produção de notícias falsas é como uma metástase, quanto mais disseminadas, mais destroem o tecido da sociedade. Infelizmente, um dos “novos normais” é ter que lidar e combater indivíduos que possuem uma nítida insuficiência de empatia tanto com pessoas, quanto com os princípios climáticos. 

Transformar situações fantasiosas, sobre determinada conjuntura, mais ainda quando é sobre a polarização política brasileira, é um hábito que as agencias de notícias falsas fabricam. E vendem caro.

A infraestrutura do caos é capaz de violar desde a integridade de pessoas até um evento climático brutal que devastou o Rio Grande do Sul, através de contextos fraudulentos, eivados de invencionice tacanha e repleto de desinformação com o intuito de atacar adversários políticos. Conseguiram politizar um desastre. É isto mesmo.

BRASIL (QUASE) SEM CLIMA

A pesquisa “Natureza e Cidades: a relação dos brasileiros com a mudança climática” revela que 64% da população – ou seis em cada dez pessoas – temem as consequências das precipitações intensas e temporais, associando-as a desastres naturais como tempestades, alagamentos e vendavais. 

O estudo, uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário em parceria com a Unesco no Brasil,Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Anamma) e a Aliança Bioconexão Urbana, destaca uma preocupação significativa com os eventos climáticos extremos, que estão se tornando mais frequentes e intensos ao longo do tempo. De acordo com os dados, 71% dos entrevistados percebem essa tendência alarmante. 

Além do reconhecimento de que as mudanças climáticas transcendem o mero aquecimento global, 93% dos participantes da pesquisa notam um aumento na intensidade de fenômenos como tempestades, ondas de calor e frio, e ciclones – uma realidade que 91% consideram importante. 

Para Malu Nunes, diretora-executiva da Fundação Grupo Boticário, os resultados são um chamado à reflexão sobre soluções práticas. “A pesquisa nos permite compreender melhor os impactos diretos das mudanças do clima na vida da população, o nível de entendimento das pessoas sobre o aumento dos fenômenos climáticos extremos e, também, refletir sobre possíveis caminhos para tornar nossas cidades mais resilientes à nova realidade,” afirma Malu.

A Natureza “fala”, mas a maioria da sociedade não a ouve. Se a coexistência entre o ser humano e ela não se equilibrarem, sobrarão apenas escombros ou pedras pelo caminho. Foto: Carlos Macedo/Folha

Os impactos dessas mudanças já são palpáveis, com cerca de 35% das pessoas relatando terem sido afetadas ou terem familiares diretamente impactados por fenômenos climáticos extremos. Dentre esses, 65% sofreram perdas financeiras, com um prejuízo médio estimado em R$ 8.485,00 por pessoa. 

Os eventos mais citados incluem chuvas fortes ou tempestades (45%), ventanias (21%), inundações e alagamentos (21%), ondas de calor (20%), estiagens prolongadas (7%) e deslizamentos de terra ou desmoronamentos (5%). A pesquisa também destacou o aumento nos preços dos alimentos, com uma nota média de 8,8 em uma escala de 0 a 10, como uma das principais repercussões das mudanças climáticas, seguido por preocupações como a extinção de espécies, aumento do nível do mar, crise no abastecimento de água e crise na geração de energia. 

A análise regional mostra que a população da Região Sul é a que se sente mais impactada (45%), seguida pelas regiões Sudeste (36%), Norte (34%), Centro-Oeste (32%) e Nordeste (29%). 

Este levantamento sublinha a urgência de uma ação coletiva e consciente para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas, buscando não apenas mitigar seus efeitos, mas também adaptar nossas cidades e comunidades para um futuro mais sustentável e resiliente

A RECONSTRUÇÃO GAÚCHA

A reconstrução do Rio Grande do Sul, após os desastres causados pelas fortes chuvas, já está sendo um desafio colossal.

Ministro do MIDR, Waldez Góes, presidente Lula, Governador Eduardo Leite e o ministro-chefe da Secom. Leite vem dialogando com Lula sobre a liberação de recursos para reconstruir o RS. Governador diz ter R$ 19 bilhões; o presidente anunciou que irá repassar mais R$ 51 bilhões.

Custo Inicial da Reconstrução: o governador Eduardo Leite divulgou uma previsão bilionária para a recuperação do território gaúcho. Segundo cálculos iniciais, serão necessários pelo menos R$ 19 bilhões para reconstruir o estado. No entanto, é importante destacar que essa é uma estimativa inicial e o custo total pode ser ainda maior. 

Estimativa Alternativa: o economista Claudio Frischtak, da consultoria Inter B, indica que a reconstrução exigirá ao menos R$ 92 bilhões ou cerca de 0,8% do PIB do Rio Grande do Sul. Ele ressalta que o estado representa aproximadamente 5% da população brasileira e possui um estoque de infraestrutura correspondente a 36% do PIB nacional. Essa estimativa considera a magnitude dos danos e a necessidade de restaurar a infraestrutura afetada. 

Fontes de Recursos: as negociações para liberar recursos estão em andamento, apesar das restrições fiscais enfrentadas tanto pela União quanto pelo governo estadual. Porém, na tarde desta quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que irá repassar ao estado R$ 51 bilhões. E ainda afirmou que não haverá burocracia para atrapalhar a reconstrução do Rio Grande do Sul.

Suspensão do pagamento da dívida: o Rio Grande do Sul possui uma dívida com o Governo Federal de R$ 3,5 bilhões, valor que poderá ser repassado ao estado. Mas esta alternativa ainda precisa ser discutida.

Outras propostas para viabilizar de maneira mais célere os recursos para o estado estão sendo estudadas, como a criação de um “orçamento de guerra”, mas especialistas em contas públicas têm ressalvas quanto a essa flexibilização excessiva das regras fiscais. 

A recuperação do Rio Grande do Sul será um processo complexo e demandará recursos significativos. A mobilização de esforços conjuntos entre os governos federal, estadual e a sociedade será fundamental para superar os desafios e reconstruir o estado

FENÔMENOS CAUSARAM A TRAGÉDIA – Segundo o meteorologista Fábio Luengo, do Climatempo, o desastre no Rio Grande do Sul foi causado por consequências climáticas que ocorreram praticamente ao mesmo tempo. 

Condições Meteorológicas: o meteorologista explica que a catástrofe é resultado de pelo menos três fenômenos que afetam a região e foram agravados pelas mudanças no clima. Um dos fenômenos se chama cavado, que é uma corrente intensa de vento que atuou sobre a região, tornando o tempo instável. O segundo fator é o corredor de umidade, originado da Amazônia que potencializou a força das chuvas. E o bloqueio atmosférico que é o reflexo da onda de calor que fez com que o centro do país ficasse seco e quente, concentrando a chuva nos extremos do Rio Grande do Sul.

Impacto das Mudanças Climáticas: o aquecimento global e as mudanças climáticas têm um papel importante nesse cenárioO calor da Terra e dos oceanos impacta a atmosfera, tornando os eventos climáticos mais intensos. O Sul do Brasil já tem condições favoráveis para tempestades nessa época do ano, mas o aumento da temperatura do oceano gera mais energia para a formação das chuvas, levando-as a níveis nunca vistos. 

mudança no padrão climático interfere na atmosfera, tornando os fenômenos mais extremos. Portanto, a tragédia no Rio Grande do Sul, infelizmente é uma combinação de fatores climáticos e mudanças no clima, resultando em chuvas intensas e contínuas que causaram danos significativos e perdas de vidas.

Luengo para o G1, ainda analisou que “o cenário era instável na região há alguns dias, mas a soma desses fatores fez intensificar a chuva. O que acontece é que tivemos várias frentes frias que não conseguiram se dissipar para outras regiões por causa do bloqueio atmosférico e, com isso, elas passaram a agir sobre todo o Rio Grande do Sul”, completou.

O INÍCIO DO CAOS

O termo fake news necessariamente não possui um “criador”, mas a criatura já fazia certo estrago entre publicações de jornais que remontam ao século XIX. A palavra fake também é relativamente nova no vocabulário, como afirma o Dicionário Merriam-Webster. Até o século citado, por volta de 1890, os países de língua inglesa utilizavam o termo false news para denominar os boatos de grande circulação.

Mas a expressão se tornou demasiadamente popular durante a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016, quando eleitores do então candidato republicano Donald Trump atacavam, através de notas falsas na mídia, sua concorrente ao cargo, a democrata Hillary Clinton. 

Reprodução CNJ

FAKE NÃO É NEWS – abaixo, algumas situações vexatórias, indecentes e pedagógicas sobre fake news sobre a tragédia no Sul e outros exemplos. 

Impostos sobre Doações – circulou nas redes sociais um vídeo alegando que a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul estava impedindo a entrada de caminhões com doações para os desabrigados por falta de nota fiscal. No entanto, essa informação é fake news. 

O secretário-chefe da Casa Civil do governo gaúcho, Artur Lemos, ainda esclareceu que as doações estavam passando isentas de impostos e não havia cobrança de tributos. 

Uma das fake news mais disseminadas que incluem informações falsas sobre a tragédia, é de que o governo havia se mobilizado para multar os barqueiros que fazem o resgate das vítimas.

“Comportas do PT” – O jornalista Alexandre Garcia se tornou alvo de investigações da Polícia Federal e da AGU (Advocacia-Geral da União) por divulgar fake news em relação às causas da tragédia no Rio Grande do Sul. Garcia afirmou que volume de chuvas no Rio Grande do Sul foi agravado por comportas abertas de represas construídas “em governo do PT”.

REAL NEWS – abaixo, exemplos evidentes, de pesquisas realizadas por empresas idôneas, reconhecidas e competentes, de que o analfabetismo digital é um problema sério em um país onde há produção em massa de fake news.

  • 62% dos brasileiros não conseguem reconhecer uma notícia falsa, ou fake news, de acordo com um estudo chamado “Iceberg digital”, desenvolvido pela Kaspersky em parceria com a empresa de pesquisa CORPA. 
  • Quase 90% da população brasileira admite ter acreditado em conteúdos falsos, segundo uma pesquisa do Instituto Locomotiva.
  • 85% dos eleitores brasileiros acreditam que as fakes news podem impactar na eleição, conforme dados da pesquisa Ipec.
  • O portal Brasil Contra Fake publicou 265 notas que alcançaram mais de 1,1 milhão de visualizações em seu portal de notícias.
  • Quatro em cada dez pessoas no Brasil afirmam receber notícias falsas todos os dias.
  • Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos, os brasileiros são os que mais acreditam em fake news no mundo. No Brasil, 62% dos entrevistados admitiram já ter acreditado em alguma notícia falsa.
  • Apenas 42% dos brasileiros ocasionalmente questionam o que leem na internet.

Uma pesquisa abrangente e surpreendente sobre as mídias sociais, realizada pelo Media Lab, do renomado Massachussetts Institute of Technology (MIT), ou Instituto de Tecnologia de Massachussetts, entre os anos de 2006 e 2017, examinou cerca de 126 mil notícias que foram tuitadas e compartilhadas por aproximadamente 3 milhões de pessoas no Twitter

Os resultados indicaram que as notícias falsas eram 70% mais prováveis de serem compartilhadas pelas pessoas do que as verdadeiras. O estudo ainda demonstrou que cada postagem verdadeira atinge, em média, mil pessoas, enquanto as postagens falsas mais populares – aquelas que estão entre o 1% mais replicado – atingem de mil a cem mil pessoas. O Media Lab ainda destacou que as fake news eram disseminadas por pessoas, não robôs.

Em março de 2019, o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, iniciou o Inquérito 4.781, popularmente conhecido como inquérito das fake news, para investigar uma série de falsas informações produzidas em sites de noticias, Twitter/X, Facebook e Instagram, além do WhatsApp e do Telegram. Os investigados são, ou eram, todos ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Os teores do inquérito, que tem a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, seguem em investigação no STF.

A legislação brasileira ainda não conta com uma lei específica para punir quem divulga fake news, seja na produção do conteúdo ou no seu compartilhamento. No entanto, a falta de uma verificação prévia da veracidade dos fatos está sujeita a responsabilização por meio de instrumentos legais do direito civil e criminal. 

No Senado, foi apresentado um Projeto de Lei (PL 473/17), de autoria do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que estabeleceria como crime divulgar notícias sabidamente falsas relacionadas à saúde, segurança pública, economia nacional, processo eleitoral ou que afetem interesse público relevante. Ou crime de divulgação de notícia falsa. Esse projeto previa a pena de detenção de seis meses a dois anos e multa. Porém, não foi a votação e foi arquivado.

As doações para a conta ‘SOS Rio Grande do Sul’ devem ser feitas via Pix:

Chave Pix: CNPJ: 92.958.800/0001-38

Associação dos Bancos No Estado do Rio Grande do Sul ou Banco do Estado do Rio Grande do Sul (as duas opções podem aparecer)

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