23 de julho de 2024

Cabralzinho, o maior ‘território’ contestado do Amapá

Para uns, herói; para outros, um medroso; para alguns, um político sagaz, porém autoritário. A ‘disputa’ pelo Francisco é a mesma que bate em Chico?
Herói ou não, Cabralzinho ainda povoa o imaginário do amapaense. Ganha a História tucuju com mais interesse em pesquisar o passado que formou o Amapá. Foto: Seles Nafes

Este texto não representa a superficialidade randômica vista, todos os anos, na maioria dos escritos, sobre a figura de Francisco Xavier da Veiga Cabral, reverenciada como herói amapaense e, ao mesmo tempo, questionada quanto à sua legitimidade e origem de suas distinções. 

conceito de herói, enraizado no positivismo, auxilia regimes republicanos a estabelecer símbolos de autoridade. Sociedades criam uma carga simbólica e emocional que transcende os estatutos formais, onde a figura do herói se insere para legitimar o poder. Heróis são símbolos potentes, encarnações de ideais e aspirações, ferramentas eficazes para conquistar a mente e o coração dos cidadãos. 

No Amapá, o herói surge como um elo entre o povo e o poder estabelecido. A construção do mito heroico requer escrutínio, pois heróis podem ser criados para satisfazer interesses de grupos políticos restritos. Este fato aconteceu no Brasil contemporâneo, em 2018. 

Foto: Reprodução.

 A narrativa do herói, na sociedade amapaense, reflete uma complexa interação entre história, política e identidade. E desde a época de Cabralzinho, este fenômeno é ainda mais crescente com o advento das redes sociais, onde políticos vêm sendo transformados em heróis, quando deveriam ser fiscalizados com educação, digamos.

Cabralzinho era tido e havido como uma figura de liderança polêmica na Vila do Espírito Santo do Amapá, hoje município de Amapá. O líder do Triunvirato amapaense, onde Cônego Domingos Maltês e Desiderio Antônio Coelho também eram participes, é descrito como autocrático e voltado para os interesses da elite. A complexidade dessa figura histórica reflete as nuances e os conflitos de uma era de transformações e disputas territoriais naquela região.

É justo nestas questões beligerantes e fronteiriças que aparece o renomado zoólogo e naturalista Emilio Goeldi que atuou, indiretamente, de forma diplomática, para o diplomata de fato, José Maria da Silva Paranhos Junior, o Barão do Rio Branco. Os dados coletados por Goeldi em suas expedições, como informações sobre a geografia, a fauna e a flora da região, embasaram o Barão do Rio Branco a formular estratégias eficazes para a defesa da fronteira em favor do Amapá.

Barão do Rio Branco, considerado o maior diplomata do Brasil, foi o responsável por garantir, em 1900 na Suíça, que o Território Contestado, motivo de conflitos entre brasileiros e franceses, era uma posse legitimamente brasileira. Na foto, por óbvio, uma montagem no Itamaraty, a sede da diplomacia do governo brasileiro. Foto: Reprodução

E no primeiro dia de dezembro de 1900, foi assinado o Laudo Suíço, ou o Tratado de Berna. As informações de Goeldi foram essenciais para a integração da área de fronteira do rio Oiapoque, no Amapá. Emílio Goeldi foi vital para a defesa da fronteira do Amapá. Com a posse favorável ao Brasil e o fim dos conflitos, o suíço também teve participação no entorno de Cabralzinho, por volta de cinco anos antes.

Foto: Reprodução

Goeldi documentou suas observações em um relatório detalhado sobre a realidade da liderança de Cabralzinho. O zoólogo descreveu uma transferência de poder para uma “oligarquia de capangas” e observou sinais claros de descontentamento e oposição dos populares. O relatório de Goeldi permitiu uma reavaliação do Território Contestado, ainda em disputa, antes do Tratado de Berna. A figura de Cabralzinho emergiu em meio às adversidades enfrentadas pela Vila do Espírito Santo do Amapá. 

A sua história reflete um mosaico de ideologias políticas, resultando em uma série de discursos e contradiscursos. Esses frequentemente colidem, gerando controvérsias que são ignoradas ou mal interpretadas por alguns historiadores.

Os historiadores Jaime Pinsky e Carla Pinsky reconhecem que é o exame crítico das motivações por trás dos discursos, a compreensão dos jogos de poder na construção das narrativas históricas e a análise e desmonte dos argumentos que constituem ferramentas valiosas para a compreensão histórica

Tendo ascendido na então Vila do Espírito Santo do Amapá, Cabralzinho teve a sua liderança ameaçada pelo episódio mais lendário e sanguinário de confronto com o Capitão Lunier, líder da expedição francesa. Era a Intrusão Francesa, comandada pelo capitão Charles-Louis Lunier que, com suas tropas, avançaram para a tentativa de tomar o então Território Contestado

Este confronto massacrou 36 civis brasileiros, o capitão Lunier foi morto no combate e os homens de Cabralzinho repeliram o perigo francês. Cabralzinho ficou conhecido como um herói para alguns e um político astuto para outros. Ou ambos para mais alguns e nenhum para outros). A Intrusão Francesa no Amapá ocorreu em 15 de maio de 1895, na fronteira Guiana Francesa, sendo o evento culminante da disputa territorial conhecida como Contestado Franco-Brasileiro. 

Após esse evento, a questão foi resolvida na Suíça, em 1900, com o Tratado de Berna, como já reportado neste texto. Portanto, após a decisão da arbitragem internacional, os franceses não voltaram a contestar o território do Amapá porque a disputa já havia sido legalmente resolvida e a soberania brasileira sobre o território havia sido reconhecida internacionalmente.

Cabralzinho, apesar da baixa estatura, se tornou enorme para o Brasil. Após derrotar os franceses, foi agraciado com o quilométrico título de General Honorário do Exército Brasileiro pela República do Brasil. É evidente que, a partir de sua história – que alguns chamam de estória – o militar contribuiu para a formação de uma identidade territorial e para o imaginário coletivo do amapaense. Sua liderança na Vila do Amapá, apesar de considerada autoritária, e a subsequente defesa contra a tirania francesa, projetaram-no como um ícone de resistência e orgulho nacional. 

Cabralzinho, que faleceu em 1905, não teve a chance de ver o que Gilberto Freyre, um dos maiores sociólogos e historiadores do mundo, autor do clássico “Casa Grande & Senzala”, lhe escreveu. Freyre sequer tinha nascido quando os franceses foram derrotados pelas tropas de Cabralzinho (1895). E em 1º de dezembro de 1900, ano da confirmação da posse brasileira pelo território contestado, confirmado pelo Laudo Suíço, Freyre já estava com 9 meses de idade. inquieto com as frequentes suposições, teorias da conspiração e até lendas urbanas, o sociólogo disse:

Sociólogo e historiador Gilberto Freyre defendia a legitimidade de Cabralzinho como herói amapaense e também brasileiro. Freyre chegou a chamá-lo de “épico”. Foto: Fundação Gilberto Freyre.

“Será que o Brasil pode dar-se ao luxo de deixar na sobra heróis ignorados? Ou encobertos? Não há povo que possa viver saudavelmente sem lembrar-se de seus heróis. Sem cuidar de que eles existem. Quando lhe faltam os verdadeiros, recorre aos espúrios. Vale-se dos arremedos.

Em Fronteiras sangrentas, o erudito admirável, (…) recorda aos brasileiros de hoje os heróis do Amapá. heróis aos quais deve muito o Brasil. Entretanto são ignorados. Estão nas sombras, quando o maior deles, Francisco Xavier da Veiga Cabral, chega a ser épico.”

A história revelou que a narrativa heroica em torno de Cabralzinho foi cuidadosamente construída. A elite dominante da época, aliada à habilidade política de Cabralzinho, orquestrou uma campanha de glorificação que o posicionou como um patriota que salvaguardou sua terra de uma invasão estrangeira.

A figura de Cabral ainda é preponderante no irreal e no fantasioso, no verídico e no autêntico, ademais, ele fez e fará parte da formação da identidade cultural amapaense, seja em qual geração for. 

Agora, se tu tens dúvidas de que Cabral realmente foi herói, ou não, deixo para ti esta frase dita à época dos conflitos “bem ali” na fronteira:

“Se é grande o Cabral que nos descobriu, maior é o Cabral que nos defendeu!”

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