23 de julho de 2024

Instituto estuda como onças-pintadas foram parar na costa do Amapá 

Pesquisadores tentam descobrir como os felinos chegaram à Ilha Maracá-Jipioca.
Onça-pintada fotografada na Estação Ecológica Maracá-Jipioca. Girlan Dias/ICMBio
Onça-pintada fotografada na Estação Ecológica Maracá-Jipioca. Girlan Dias/ICMBio

Em um avanço para a conservação da vida selvagem na Amazônia, as onças-pintadas da Estação Ecológica Maracá-Jipioca (Esec Maracá-Jipioca), também conhecida como “Ilha das Onças”, estão sendo equipadas com coleiras GPS para um estudo de monitoramento via satélite. O Instituto Onça Pintada (IOP), ou Jaguar Conservation Fund (JCF), quer entender melhor a dinâmica populacional e o comportamento destes majestosos felinos na costa do Amapá.

Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra a Esec, a área abriga a maior densidade de onças-pintadas por metro quadrado no mundo, o que despertou o interesse do instituto. Na estação é estimada uma população de 6,7 onças a cada 100 quilômetros quadrados, intrigando os pesquisadores sobre como esses animais chegaram e prosperaram em uma ilha cercada pelo mar.

Biólogo Leandro Silveira instalando o dispositivo de GPS em uma onça-pintada. O pesquisador acompanha o comportamento do animal para tentar descobrir como a espécie migrou para a costa amapaense. Foto: Instituto Onça-Pintada (IOP).

O monitoramento já dura três anos e já capturou e equipou sete onças com dispositivos GPS. O presidente e fundador do Instituto Onça-Pintada (IOP), o biólogo Leandro Silveira, explicou ao portal G1 que o estudo pode levar até 10 anos para uma compreensão plena sobre como as onças vivem nessa geografia única.

Um dos objetivos da pesquisa também é descobrir como os felinos se comportarão diante do crescimento populacional. “A gente sabe que, no mínimo, tem ali entre 25 e 30 fêmeas, com capacidade de reproduzir pelo menos um filhote a cada ano. Chega uma hora que essa ilha vai estar saturada, mas pelo que a gente está vendo isso não acontece. Então, alguma dinâmica nessa ecologia ocorre e é isso que a gente quer entender”, disse o cientista.

A pesquisa também busca avaliar o impacto de possíveis interferências externas, especialmente aquelas que afetam a base alimentar das onças, que na ilha é principalmente peixes. Qualquer redução significativa nas espécies de peixes poderia ter um impacto direto sobre as onças, tornando-as um bioindicador crucial da qualidade ambiental.

No Brasil, a onça-pintada é listada pelo IBAMA (2003) como ameaçada de extinção; e globalmente é classificada como quase ameaçada (IUCN, 2008). Foto: Adobe Stock.

As onças-pintadas (Panthera onca) desempenham um papel crucial na ecologia da Amazônia. O ecossistema ficaria desequilibrado sem a sua contribuição ao bioma amazônico. Como controle populacional de presas, as onças são predadores de topo, o que significa que estão no ápice da cadeia alimentar. Elas regulam as populações de suas presas, como cervos, capivaras e outros mamíferos.

Ao controlar o número de herbívoros, as onças ajudam a manter o equilíbrio entre as espécies e a saúde das florestas. Já sobre a manutenção da biodiversidade, elas têm preferências alimentares variadas e caçam diferentes espécies. Isso ajuda a manter a diversidade de animais na região. E os felinos também ajudam a evitar que uma única espécie herbívora se torne dominante.

As onças-pintadas são ótimas dispersoras de sementes, elas percorrem grandes áreas em busca de alimento. Durante suas jornadas, transportam sementes em seus pelos e patas. Essa dispersão de sementes é fundamental para a regeneração das florestas

A respeito do equilíbrio de outras espécies, as onças as mantêm em alerta. Isso afeta o comportamento de animais menores, como macacos e aves. O medo de serem caçados pelas onças, influencia a dinâmica das populações dessas espécies, evitando superpopulações ou extinções locais.

AQUI, HUMANO NÃO ENTRA

A Ilha Maracá-Jipioca, onde, por óbvio, fica a Esec, é um santuário ecológico situado no Amapá e que abriga uma biodiversidade estuarino-marinha única. Esta estação ecológica é composta por duas ilhas, Maracá e Jipióca, que juntas formam um ecossistema de campos inundáveis, manguezais e floresta de várzea. A ilha está localizada no município de Amapá, na costa atlântica do estado do Amapá, a 6 km do continente. 

Vista aérea da parte sul da exuberante e rica em biodiversidade Ilha Maracá-Jipioca, no Amapá. Lar intocável de uma fauna e uma flora inspiradoras, assim como das belas onças-pintadas. Foto: André Dib/WWF.

A Estação Ecológica Maracá-Jipioca é um exemplo de conservação bem-sucedida, sem a presença de estradas, humanos ou outras formas de antropização, garantindo a preservação do ecossistema. Os únicos habitantes que têm permissão para morar por lá são a fauna e a flora. Por falar em vida, a da ilha é regida pelas marés, que influenciam a dinâmica de todas as espécies residentes, incluindo as donas da casa, as onças-pintadas, que se adaptaram, inclusive, para incluir peixes em sua dieta

A ilha possui uma área aproximada de 60.253 hectares e foi designada como estação ecológica de proteção integral em 2 de junho de 1981Como já citado, é administrada pelo ICMBio que, entre outras atribuições ambientais, objetiva preservar amostras significativas de formações pioneiras em ambiente costeiro-marinho. O Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque (PARNA Tumucumaque), no Amapá e parte do Pará, é outra Unidade de Proteção Integral (UPI), e também é gerido pelo ICMBio.

A flora da estação é composta por manguezais com quatro espécies arbóreas típicas deste ecossistema. Mata de várzea e campos alagados, associados à variação da maré e ao volume de chuvas da região, são predominantes na ilha. A vegetação de Maracá-Jipioca é diversificada, incluindo campos de planície com gramíneas, ciperáceas e melastomáceas, além de matas de igapó com espécies típicas de zonas inundadas por água doce.

Apesar da vantagem numérica das senhoras e senhores onças-pintadas, a fauna da Esec é rica em espécies, como as de topo de cadeia e animais ameaçados de extinção, como a própria onça. Por lá residem flamingos, meros e guarás. A Ilha de Jipioca, parte da estação, possui grande diversidade de aves, répteis, mamíferos, peixes e inúmeros invertebrados.

A Esec Maracá-Jipioca tem uma Importância primordial para o meio ambiente, como a conservação da sua biodiversidade que se encontra em excelente estado de preservação, graças ao seu relativo isolamento, que é insular, onde a estação ecológica permite que espécies locais estabeleçam um processo evolutivo diferenciado do continente.

A Estação Ecológica Maracá-Jipioca é um exemplo vital de conservação na Amazônia, protegendo uma área representativa do bioma e fornecendo um refúgio seguro para muitas espécies, inclusive… as onças. Seria um desaforo eu terminar este escrito sem citar as donas e os donos da ilha… das onças.

CARACTERÍSTICAS, COSTUMES E O PRINCIPAL: PROTEÇÃO

A onça-pintada, Panthera onca, é o felino mais robusto do continente. Este magnífico animal pode pesar até 135 kg e é reconhecido por sua força muscular excepcional, que lhe confere a mordida mais potente entre todos os felinos, capaz de perfurar até mesmo cascos e carapaças. 

Ela é um animal adaptável em termos de habitat, podendo ser encontrada em florestas densas como a Amazônia e a Mata Atlântica, bem como em áreas abertas como o Pantanal e o Cerrado. 

A dieta da onça é diversificada, incluindo presas como catetos, capivaras, jacarés, queixadas, veados e tatus, refletindo sua habilidade como predador no topo da cadeia alimentar. No caso das onças-pintadas da Ilha Maracá-Jipioca, elas incluíram peixes no cardápio.

As onças da Estação Ecológica Maracá-Jipioca, quando têm um tempo sobrando, apreciam um descanso nas praias da ilha. As onças-pintadas são desbravadoras por natureza, elas têm capacidade de andar de 22 a mais de 150 quilômetros quadrados, dependendo das condições ambientais. 

O encontro entre machos e fêmeas ocorre apenas para o acasalamento. Após pouco mais de 100 dias, um ou dois filhotes vêm ao mundo. A mãe guia seus filhotes durante aproximadamente dois anos, ensinando-os as habilidades essenciais para caçar e sobreviver de forma independente.

As marcas distintas na derme das onças-pintadas funcionam como um código único e intransmissível, semelhante às impressões digitais humanas, garantindo a singularidade de cada indivíduo. No processo de pesquisa em campo, especialistas do Instituto Pró-Carnívoros realizam um meticuloso registro fotográfico do padrão de manchas laterais e cranianas dos animais. 

Tal procedimento permite que, mesmo após um evento trágico como a morte da onça por caçadores, removendo-se o dispositivo de rastreamento, o animal possa ser identificado ao se confrontar as imagens prévias com a pele. 

As onças, por várias vezes até, enfrentam desafios significativos para sua sobrevivência. A redução de suas presas naturais, muitas vezes resulta da degradação ambiental causada por atividades humanas, como desmatamento e expansão agrícola. 

Com uma legislação de proteção ao meio ambiente pífia, inábil e que beira o medíocre, resta à instituições, ONG’s e à sociedade civil fazerem um esforço hercúleo para salvar a Natureza brasileira. Foto: Adobe Stock

Quando esses animais silvestres se tornam escassos, as onças podem se voltar para o gado e outros animais domésticos, o que infelizmente leva a conflitos com humanos. Esses conflitos frequentemente resultam em caça às onças. 

A caça predatória, muitas vezes justificada pelo prejuízo econômico que as onças podem causar, também contribui para a diminuição de suas populações. Esses fatores, combinados com a caça ilegal (Lei 5.197) e o tráfico de espécies (Lei n° 9.605 e Lei nº 6.514) colocam as onças em uma posição vulnerável.

Organizações como a International Union for Conservation of Nature (IUCN), ou União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), reconhecem a onça-pintada como uma espécie vulnerável. A inclusão no apêndice I do CITES, que regula o comércio internacional de espécies ameaçadas, reflete a necessidade urgente de proteção. 

A onça-pintada ainda pode ser encontrada em várias regiões da América Latina, incluindo o Brasil, onde é um ícone da biodiversidade. No entanto, a espécie enfrenta a diminuição de suas populações, especialmente em áreas onde há conflito com atividades humanas. No Brasil, a onça-pintada já é quase inexistente em muitas regiões do nordeste, sudeste e sul do país.

Para denunciar maus tratos, abusos e morte de animais em extinção na Floresta Amazônica, recorra ao IBAMA, através do número do Linha Verde: 0800 61 8080. Ou envie um e-mail para linhaverde.sede@ibama.gov.br

No Brasil, matar animais em extinção é considerado um crime ambiental grave. De acordo com o Artigo 29 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), matar, perseguir, caçar, apanhar ou utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida, resulta em pena de detenção de seis meses a um ano, e multa. O que é irrisório e um escárnio contra a fauna e a flora brasileiras.

Além disso, a pena é aumentada de metade se o crime for praticado contra espécie rara ou considerada ameaçada de extinção, ainda que somente no local da infração. Outras circunstâncias que podem aumentar a pena incluem a prática do crime em período proibido à caça, durante a noite, com abuso de licença, em unidade de conservação. Unidades de Conservação (UCs) são protegidas por autoridades federais de proteção ao meio ambiente. E assim como a Esec Maracá-Jipioca, é proibida a entrada de pessoas pois é uma unidade de proteção integral.

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