23 de julho de 2024

Crise climática transforma azeite de oliva em item de luxo

Nos supermercados de Macapá, o produto só é visto de longe da prateleira; os preços afastam ainda mais o consumidor que procura alternativas também saudáveis, e com preços mais atrativos, para substituir o “ouro líquido”.

Imagine-se em um supermercado, cercado por prateleiras que ostentam garrafas de azeite de oliva. O brilho do vidro não esconde a dura realidade: os preços subiram mais de 40% em apenas 12 meses. Pergunta inevitável: o azeite de oliva extravirgem voltará a ser acessível? Pelo visto, não tão cedo…

O delicioso azeite de oliva é obtido através do processamento do fruto da oliveira, a azeitona, que é uma fruta amarga. Literalmente ficou amarga com o consumidor amapaense. Foto: GETTY IMAGES

A seca histórica que devastou a safra de azeitonas na Europa em 2022 e 2023, provocada pelo fenômeno El Niño, fez a produção mundial de azeite despencar de 3,3 milhões para 2,7 milhões de toneladas. E não é só isso. A desvalorização do real em relação ao dólar torna cada gota de azeite importado ainda mais cara para os brasileiros. Para completar o cenário caótico, a guerra entre Rússia e Ucrânia pressiona os custos de produção e transporte, jogando os preços nas alturas.

Os consumidores, agora com as mãos literalmente atadas, veem a taxa de incidência do azeite nas notas fiscais cair de 4,3% para 2,4% em apenas um ano. A saída? Optar por garrafas menores e engolir o orgulho junto com o preço. Mas nem tudo está perdido. As estimativas para a safra de 2023/24 apontam para um aumento de 9% na produção europeia, alcançando 1,5 milhão de toneladas de azeite. Será suficiente para abaixar os preços? Talvez não.

Olhando a prateleira na esperança de encontrar um extravirgem mais em conta. Tentativa em vão. Foto: Wesley Gonçalves.

BRASIL: UM GIGANTE IMPORTADOR

O Brasil, segundo maior importador de azeite de oliva do mundo, compra cerca de 100 mil toneladas de centros de excelência como Espanha e Portugal. 99% do azeite consumido no país é importado. Esse cenário só mudará se a produção local aumentar, o que atualmente representa apenas 1% do consumo.

CRISE CLIMÁTICA, FRAUDES… EIS A REALIDADE.

A guerra e a crise climática não são os únicos vilões. Em épocas de preços altos, fraudes se tornam comuns. Em março, o Ministério da Agricultura prendeu criminosos e apreendeu mais de 100 mil litros de azeite adulterado. Entre as marcas retiradas de circulação estavam Terra de Óbidos, Vincenzo, Serra Morena e Don Alejandro.

MERCADO INTERNO

Luiz Eduardo Batalha, maior produtor de azeite de oliva do Brasil, confirma que os problemas climáticos europeus impactaram fortemente os preços. “Além do mais, com apenas 1% da produção nacional, o Brasil depende dos principais produtores mundiais, como Portugal, Espanha e Itália. Os preços subiram entre 40% e 50%, e a maior parte do azeite consumido aqui ainda é importada”, lamentou Batalha.

O PREÇO DO LUXO EM MACAPÁ

Em Macapá, as garrafas de azeite exibem preços que vão de R$ 48 (Fillipo Berio, Toscana) a R$ 109,99 (marcas como Crudo e Puglia). As marcas nacionais, como Costa Doce e Sabiá, são ainda mais caras, com garrafas de 250 ml custando R$ 149 e R$ 189, respectivamente. Mais caras e menos vistas. Por que será?

O azeite extravirgem “equilibrado” da marca espanhola Borges está mais em conta. Só se for para não pagar a conta do supermercado. Foto: Raul Learte-Mareco
O azeite de oliva extravirgem Crudo, fabricado na Itália, em um supermercado de Macapá. Precisa de mais legenda? Foto: Raul Learte-Mareco

Enquanto o ouro líquido permanece inacessível para muitos, os brasileiros buscam alternativas. O futuro do azeite de oliva no Brasil é incerto, e a esperança reside na recuperação das safras e na estabilização do clima. Até lá, o azeite de oliva segue sendo um item de luxo nas cestas de compras. 

A SAGA POR ALTERNATIVAS AO AZEITE DE OLIVA

O Brasil, país do arroz com feijão, viu um de seus amores culinários se tornar um luxo inacessível. O azeite de oliva, aquele ouro líquido, agora brilha distante das mesas dos mais humildes. A corrida por alternativas saudáveis começou, e as prateleiras de óleos vegetais se tornaram o novo El Dorado dos consumidores.

Imagine a cena: eu, me desvencilhando pelos corredores de um supermercado, com olhos de águia e nariz de sabujo, farejando essas alternativas ao azeite. Enquanto as etiquetas de preços do azeite de oliva me olham de cima, como se zombassem da minha carteira, os óleos vegetais me acenam.

Além do azeite de oliva, há uma vasta opçãoo de outros azeites ou óleos que são tão nutritivos e saborosos – e mais baratos – que o nosso extravirgem. Foto: Adobe Stock

Óleo de castanha do Pará

“Que delícia, hein?” pensa você, talvez pela primeira vez ouvindo falar desse tesouro amazônico. Extraído das sementes dessa nobre castanha, ele se torna o herói anônimo das saladas e até das carnes. É aquele tipo de óleo que faz você sentir que está mordendo um pedaço da floresta, verde e virgem. Se for para temperar o prato, que seja com um toque de exotismo e um gostinho de aventura. Os preços deste néctar da Amazonia variam entre R$ 38 e R$ 121.

Óleo de abacate

Ah, o abacate! Não é só para guacamole e vitamina, meu caro. Este óleo, extraído da polpa cremosa da fruta, pode ser seu fiel escudeiro na cozinha. Além de resistir ao calor, possui poderes mágicos anti-inflamatórios e antioxidantes. Imagine-se fritando um ovo ou cozinhando um peixe com ele – uma explosão de saúde e sabor, uma verdadeira festa verde no seu fogão. Este óleo varia entre R$ 23 a R$ 110.

Óleo de coco

Já popular nas bocas e nas cabeças do povo – sim, até no cabelo! – o óleo de coco é aquele amigo versátil, pronto para qualquer desafio. Precisa grelhar, assar ou até mesmo hidratar o couro cabeludo? Lá está ele, seu parceiro para todas as refeições, quentes ou frias. Não é àtoa que reina nas prateleiras de mercados, farmácias e lojas especializadas. O preço, em média é  deR$ 22 até R$ 121.

Óleo de amendoim

Para quem acha que fritura é pecado, eu lhes digo: o óleo de amendoim veio para redimir seus pratos. Capaz de substituir o azeite na fritura de alimentos e adicionar um sabor especial aos ingredientes leves, ele é o salvador das fritadeiras. E quem diria? Aquela nut (castanha, amêndoa etc) que você ignora no canto da mesa, transformada em elixir culinário. O valor do produto varia entre R$ 23 e R$ 112.

Óleo de cupuaçu

O cupuaçu, primo conhecido de um tal de cacau, empresta seu óleo à arte de fritar. Com textura semelhante ao óleo de coco, ele é a alma gêmea das frituras que pedem uma consistência diferente. Menos famoso, mas com o potencial de virar a nova estrela dos fogões brasileiros. O óleo do “cupu” vai de R$ 25 até R$ 119.

Até o azeite de oliva extravirgem retornar à mesa do brasileiro, vamos ser mais responsáveis, sobre o meio ambiente, já que está provado que crises climáticas afetam o mundo todo. Foto: Envato Elements.

E assim, caros leitores, seguimos a saga de substituir o azeite. O aumento do preço deste óleo tradicional nos faz buscar nos recantos da natureza e nas prateleiras dos supermercados alternativas que não só mantenham a saúde, mas também a dignidade culinária. Que esses óleos vegetais sejam nossos novos aliados na batalha pela boa alimentação, enquanto o azeite continua seu reinado distante e caro. E quem sabe, um dia, o ouro líquido retorne às nossas mesas, mas até lá, temos opções que não são insuficientes.

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