23 de julho de 2024

Indígenas do Amapá tinham noção científica avançada para os anos 1000 

Os povos originários desenvolveram sistemas de conhecimento e tecnologia adaptados aos seus ambientes específicos.O respeito e a valorização dessas tradições e conhecimentos são essenciais para uma compreensão completa da história e das contribuições dos povos indígenas.
Foto: Alex Ribeiro/Agência Pará
Foto: Alex Ribeiro/Agência Pará

Pesquisadores do Amapá – e de outros estados – têm se dedicado há 25 anos para encontrar mais elementos valiosos que remontam há 2 mil anos. A pesquisa sobre os enigmáticos monumentos megalíticos, nos limites do futuro Parque Arqueológico do Solstício, no município de Calçoene, a 364 km da capital Macapá, possivelmente construídos por indígenas, escreveu mais um capitulo para o compêndio da ciência tucuju. Atividades astronômicas, a partir da disposição das rochas, é a tese principal dos pesquisadores que sugerem que o local era um observatório astronômico utilizado por indígenas para monitorar o percurso do Sol e prever as chuvas na Amazônia.

Pedras megalíticas, descobertas há 24 anos em Calçoene, ainda fazem parte do itinerário cientifico entre cientistas mundo afora. Foto: Reprodução.

Os círculos de pedras de granito, datados do ano 1000 pelo Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), possuem rochas de até duas toneladas e também teriam servido para enterros e rituais sagrados. Este monumento ancestral, descoberto por moradores locais no topo de uma colina em 2000, é hoje um patrimônio histórico do Brasil.

Os pesquisadores acreditam que esses monumentos eram usados pelos povos indígenas da região como um observatório astronômico, permitindo-lhes acompanhar o movimento do Sol e prever as estações do ano, como os solstícios e equinócios. Além disso, há evidências de que as estruturas também serviam para rituais religiosos e funerários, o transformando em um local sagrado de grande importância cultural.

Quando os colonizadores europeus chegaram ao Brasil, diversas tribos indígenas eram adversárias. A gravura acima, de Theodore de Bay, de 1593, ilustra bem isso. Foto: Domínio Público.

Muitos povos indígenas tinham sistemas de conhecimento bem desenvolvidos, incluindo astronomia, medicina e matemática. Por exemplo, os Maias tinham um complexo sistema de calendários e um conhecimento avançado de astronomia. Os povos indígenas norte-americanos, como os Ancestrais Puebloans, construíram estruturas alinhadas com eventos astronômicos.

Há mil anos, as terras onde hoje é o Amapá eram habitadas por diversos grupos indígenas com culturas e tradições distintas. Entre eles, os povos que deixaram suas marcas nos monumentos megalíticos de Calçoene são de particular interesse para os arqueólogos. Abaixo, alguns detalhes sobre os povos indígenas da Amazônia durante esse período:

Com os séculos, essa animosidade foi perdendo força e, dependendo da época, se nao houvesse união entre os povos, nao haveria existência através da resistência. Foto: Sebastião Salgado.

POVOS ORIGINÁRIOS DE MIL ANOS ATRÁS

Palikur: ainda hoje, a etnia Palikur habita a região do Amapá, principalmente no extremo norte, na fronteira com a Guiana Francesa. Eles são conhecidos por suas tradições artísticas e rituais, incluindo a produção de cerâmicas e artefatos que apresentam iconografias complexas.

Wayana: habitantes tradicionais da região norte do Brasil, os Wayana também vivem na Guiana Francesa e Suriname. Eles são conhecidos por suas práticas agrícolas, caça, pesca e por seu profundo conhecimento da floresta amazônica.

Galibi Marworno: outro grupo significativo na região, os Galibi Marworno, vivem na área ao longo do rio Oiapoque. Eles são descendentes de grupos que migraram da região do Caribe e têm uma rica tradição cultural.

Karipuna: esse grupo indígena habita a região do Amapá e é conhecido por suas práticas de subsistência que incluem a pesca, a agricultura e a coleta de recursos naturais da floresta.

Uma das disposições das megalíticas no sitio arqueológico do Calçoene. É cada vez mais evidente que uma comunidade indígena tenha moldado esta beleza da Natureza. Foto: Dado Galdieri/NYT

PARQUE OBSERVATÓRIO-ARQUEOLÓGICO – o Governo do Amapá anunciou, durante visita do presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leandro Grass, em abril, a revitalização do Parque Arqueológico do Solstício. Nos limites do parque, existe o Observatório Astronômico de Calçoene.

Esse local é conhecido por seu círculo megalítico, que consiste em pelo menos 127 rochas dispostas em formato circular, no topo de uma colina. Supõe-se que tenha sido construído como um antigo observatório astronômico pelos antigos povos indígenas que habitavam a região. As pedras megalíticas são grandes blocos de pedra utilizados na construção de monumentos milenares. Essas estruturas são típicas dos povos da pré-história, correspondendo ao período Neolítico que começou cerca de 10 mil anos a.C. e foi até mais ou menos o terceiro milênio a.C

Resistência indígena não tem época. Desde que os europeus invadiram o Brasil, muito sofrimento ocorreu durante 500 anos. Assim como sempre contribuíram para que a humanidade não sofra reveses, protegendo e preservando as unidades de conservação, a Ciência tenta desvendar um de seus maiores segredos: o sitio arqueológico amapaense. Foto: Fábio Nascimento/MNI

Durante esse período, os seres humanos deixaram de ser nômades e começaram a conviver em sociedades, dedicando-se à agricultura e desenvolvendo ferramentas que provavelmente os auxiliaram nesse tipo de construção. As pedras megalíticas do parque em Calçoene supostamente são da mesma classificação do primo mais rico, um tal de Stonehenge, no Reino Unido, na Inglaterra: um dos monumentos pré-históricos mais conhecidos do mundo, também composto por um conjunto de estruturas circulares de pedras.

UNIVERSIDADE DE MIL ANOS

A posição estratégica dos monumentos no topo de uma colina e a sua construção meticulosa, indicam que astrônomos e engenheiros já existiam à época. Entretenimentos à parte, os indígenas possuíam algum conhecimento de astronomia e engenharia, o que desperta mais desejo nos pesquisadores contemporâneos, essencialmente com o observatório, assunto central entre a comunidade cientifica, autoridades e a população. 

Nem só de pedra megalítica o parque é composto. Pesquisadores também já realizaram descobertas que provam mais ainda a existência de indígenas no local, como estas espécies de utensílios. Foto: Mariana Cabral/Iepa.

A estrutura arqueológica ainda tem 30 metros de diâmetro, com pedras de granito de até 4 metros de comprimento. Assemelha-se a outro círculo megalítico encontrado na Guiana Francesa, cuja datação indica ter mais de 2.000 anos. Desde a descoberta, há 24 anos, o local virou um ímã para curiosos de várias partes do globo. Desde estudantes do estado a entusiastas até pesquisadores da Guiana Francesa Austrália, Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido e Escócia. 

O presidente do Iphan, Leandro Grass, acredita que o parque, quando pronto, será uma referência internacional na ciência. O Parque do Solstício será um espaço de educação, pesquisa e turismo científico, que ajudará a impulsionar a economia local e promover a identidade cultural da região. “Acreditamos que, ao destacar a singularidade deste sítio megalítico, estamos contribuindo para a descolonização da ciência e promovendo um maior reconhecimento da sofisticação dos conhecimentos astronômicos e culturais das populações indígenas, explicou Leandro Grass.

ENTENDA MAIS SOBRE OS SOLSTÍCIOS

Nem precisa legenda quando a Natureza já te responde. Foto: BBC

É um fenômeno astronômico que marca o início do verão ou do inverno. Ele ocorre duas vezes por ano e está associado ao eixo de rotação da Terra, cuja posição é inclinada a 23,5° em relação ao seu próprio eixo. 

Solstício de Verão: durante o solstício de verão, o Sol incide perpendicularmente sobre o Trópico de Câncer. Isso resulta nos dias mais longos do ano no Hemisfério Norte e nas noites mais curtas. O solstício de verão ocorre por volta dos dias 20 e 21 de junho no Hemisfério Norte e 20 e 21 de dezembro no Hemisfério Sul

Solstício de Inverno: no solstício de inverno, o Sol incide perpendicularmente sobre o Trópico de Capricórnio. Isso leva aos dias mais curtos do ano no Hemisfério Norte e às noites mais longas. O solstício de inverno ocorre por volta dos dias 20 e 21 de dezembro no Hemisfério Norte e 20 e 21 de junho no Hemisfério Sul. Em resumo, o solstício marca os momentos em que o Sol atinge sua maior declinação em latitude em relação à Linha do Equador, resultando em diferentes durações de luz solar nos hemisférios.

Geograficamente pontuando, o Amapá, cortado pela Linha do Equador, é o ponto perfeito para observar os fenômenos do equinócio e do solstício. O Parque do Solstício, quando pronto, se aliará ao monumento Marco Zero do Equador, em Macapá. “Será um verdadeiro espaço de pesquisa e entretenimento para os amapaenses, para o Brasil e para o mundo, ainda destacando os avançados conhecimentos astronômicos dos nossos antepassados indígenas,” explicou Grass, do Iphan.

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